Editorial-paulo

Sentido de urgência

O presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, emocionado com a presença de inúmeros chefes de Estado dos países de língua portuguesa na conferência do 130º aniversário do Jornal de Notícias (economia da língua), no passado mês de junho, apelou ao “sentido de urgência” com que defende os laços históricos como ponte para o futuro. Percebo a emoção. Eu próprio senti-a escorrer pela face… E a urgência existe; pela oportunidade em causa, mas também pela transição geracional.

Tenho 51 anos de idade. Nasci em Angola, vivi em Cabo Verde, Brasil, Portugal e Macau… Vivi Timor de alma e coração, onde o jornalismo foi arma da resistência; tenho memória vivida antes e depois das independências. Macau foi poupada  às guerras e tensões experienciadas nas antigas colónias portuguesas em África. Mas há um dado geracional comum, que por vezes passa despercebido: esta é a última geração moldada por essas emoções. As próximas entenderão os laços históricos, mas não lhes toca no coração.

Abraço na rua um amigo da década de noventa, com quem troco sonhos para a próxima década. Sinto as palavras de Marcelo… Como senti quando vi Ramos Horta sorrir, lembrando-se dos tempos em que era preciso levar telefones satélites para a montanha, onde a resistência denunciava a opressão, na antena poderosa da TSF.

A próxima geração fará certamente muito por um mundo global onde a língua e a cultura unificam. Os meus filhos, todos nascidos em Macau, perpetuam a ligação à terra. Mas já nasceram em território chinês; não sentem na pele dois tempos históricos. Esse privilégio não se repete. As relações pessoais, as memórias, os compromissos públicos e privados, vão-se com as gerações que atravessaram a transição. E essa é também uma enorme responsabilidade. O que não formos capazes de fazer agora, encontrando nessa história aos solavancos um horizonte comum, dificilmente outros os farão. 

Paulo Rego  06.07.2018

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