francisco_seixas_da_costa

Tempos

numa aula numa universidade em Lisboa, arrependi-me de ter citado o nome de Valéry Giscard d”Estaing. Porque fiquei com a clara sensação de que, entre aquelas dezenas de jovens, muito poucos teriam ouvido falar do antigo presidente francês. E, de certo modo, dei comigo a achar normal que isso assim fosse.

Há dias, numa rádio, ouvi alguém contar que, tendo falado de Raul Solnado a um jovem, este perguntou de quem se tratava. Duvido que haja uma única pessoa que leia este meu texto que não conheça Solnado. Mas há que ser realista: isso também significa que quem o não conhece também não lê este tipo de artigos.

Há duas décadas, ao chegar a uma capital europeia, em conversa com o jovem diplomata que me tinha ido buscar ao aeroporto, perguntei se um antigo primeiro-ministro desse país ainda era vivo. Respondeu-me, sem rir: “Não sei, não é pessoa do meu tempo”. Passei a falar-lhe da recente transferência de um médio-ala de um clube de futebol local. Não era a sua especialidade. Também.

Fiz parte de uma geração que se interessava um pouco por tudo. Para além daquilo que o meu pai designava como “cultura de almanaque” (capitais, reis, rios, Estados dos EUA e coisas assim), não nos eram indiferentes outras dimensões culturais, como a história das ideias, embora tenha consciência de que esse “renascentismo” de trazer por casa, que nos fazia falar de cinema ou de literatura, de música à política, do futebol aos assuntos do dia a dia, tinha muito de informação “pela rama”.

Não tenho o direito de exigir aos setores supostamente educados das novas gerações que sigam esse mesmo padrão de conhecimento. Alguns dirão que é ridículo saber de cor o nome da moeda da Samoa, tendo o Google à mão. São seguramente os mesmos que, colocados perante a questão sobre “quantos são” nove vezes sete, subtraídos de 18, sacam logo da calculadora, porque já há maneira de evitar “contas de cabeça”.

Seria útil colocarmo-nos a questão: valerá a pena saber essas coisas, quando temos cada vez mais informação acessível? É que, por muito que a Internet possa ser enganadora, que as “fake news” abundem nas redes sociais, “está lá tudo” e, com algum cuidado, é sempre possível separar o trigo do joio.

Durante décadas, num tempo em que não havia Internet, fiz parte de uma tertúlia onde às vezes se levantava uma discussão em torno do nome de uma atriz do filme X, do autor de um determinado texto, se um tal político tinha ou não ocupado um certo cargo. E, sem consenso, íamos para casa confirmar. E que tempo que perdíamos! Ou ganhávamos, não sei bem.

Os tempos mudaram? Claro. Mas ainda gosto tanto de discutir futebol, como saber quem era Zaratustra sem ir à net ou dizer de cor o nome antigo da capital da Gâmbia. Manias! 

Francisco Seixas Da Costa*  09.03.2018

Embaixador

Artigos relacionados

 
 

“Tecnologia blockchain irá mudar a indústria local nos próximos três anos”

O diretor Interino do Instituto de Inovação Colaborativa da Universidade de Macau antecipa que a tecnologia blockchain vá provocar mudanças na indústria financeira, turística e de serviços de entrega de Macau. Jerome Yen diz que já há casinos locais que começaram a avaliar o uso da tecnologia nos últimos dois anos. O académico alerta para

“Espero que a visita promova plataforma de serviços financeiros entre China e Portugal”

Serviços financeiros, apoio a PME e promoção do empreendedorismo jovem estão no centro da agenda da visita de Lionel Leong a Portugal e ao Brasil. O Secretário para Economia inicia na próxima semana visitas a Portugal e ao Brasil  entre 19 e 26 de junho, nas quais vai procurar elevar o papel de Macau como

Macau continua a ver crescer o mercado de hotéis low cost

Num contexto marcado pela indústria do jogo, a indústria hoteleira em Macau sempre foi constituída, principalmente por hotéis de 4 e 5 estrelas. Dados oficiais mostram também que o número de quartos para esta categoria de hotéis aumentou 135 por cento na última década. No entanto, alguns investidores locais estão agora a apostar em hotéis

Disputas na OMC atingem máximo histórico

Até ao início de junho, a organização recebeu 15 novas queixas – quase tantas como no total do ano passado. Há processos suspensos por falta de meios.  As iniciativas unilaterais sobre tarifas dos últimos meses parecem sugerir o contrário, mas as estatísticas da Organização Mundial do Comércio mostram que o fórum multilateral instituído em 1995

Das boas intenções aos passos concretos

Restam poucas dúvidas sobre o significado histórico da cimeira entre Donald Trump e Kim Jong-un, mas  persistem incertezas sobre os compromissos assumidos.   “Uma longa viagem começa com um primeiro passo”, assim versa o ditado chinês que se pode aplicar ao que se passou na cimeira histórica em que estiveram frente-afrente o presidente dos Estados Unidos e da Coreia do Norte. Há todo um historial de

Piratas da Amazónia, o crime no rio mais extenso do mundo

Centenas de quilómetros de rios e afluentes dentro da maior floresta do mundo, a Amazónia, são a principal via de transporte no norte do Brasil onde estradas de terra são raras dadas as características geográficas da região. Nos últimos anos, porém, tripulantes e passageiros que antes viajavam tranquilos nos barcos tornaram-se vítimas de grupos criminosos