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Dívida em renminbi mostra dois lados da moeda

Portugal retira o risco da evolução cambial dos investidores chineses e toma-o para si. O ganho está no acesso ao mercado, diz o economista João Duque.

Portugal prepara-se para ser o primeiro país da zona euro a emitir dívida pública no mercado interbancário chinês depois de o ministro das Finanças português, Mário Centeno, ter confirmado na passada semana à agência Reuters a autorização do Banco Popular da China para uma operação de venda de obrigações do Tesouro denominadas em renminbi. O país deverá colocar em venda títulos no valor de 380 milhões de euros (cerca de 3 mil milhões de yuans), com uma maturidade de cinco anos, num processo que deverá desencadear-se até ao final do ano.

A decisão é justificada com a necessidade de diversificar a base de credores da dívida do país e favorecida pela recente subida do rating soberano português pela agência Standard & Poor’s para um nível de investimento não especulativo. Mas é difícil avaliar para já se este será um bom negócio para Portugal. Se a opção pelo renminibi elimina riscos para investidores, aumenta por outro lado a incerteza dos custos para Portugal.

Para o economista português João Duque, a decisão de pedir dinheiro emprestado na divisa chinesa “arrasta para Portugal o risco cambial que não existe quando emite em euros, mas que nalguns casos dificulta o acesso de entidades chinesas a estes títulos”. O professor do Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) e antigo consultor da agência de dívida do Tesouro diz que “é difícil afirmar que vai ser um bom negócio para Portugal” – para tal, seria necessário antecipar o câmbio a que será feita a conversão de euros para yuans no momento do reembolso.

Desde Abril de 2015, a paridade do renminbi face ao euro tem vindo a evoluir de forma favorável às intenções portuguesas, com uma constante depreciação da moeda chinesa – só desde o início deste ano, a descida foi de 6,35 por cento. A reação inicial das autoridades chinesas foi a de procurar conter a depreciação através da venda de reservas em moeda estrangeira. Mais recentemente, especula-se sobre a possibilidade de reversão de parte do caminho feito no sentido de uma maior liberalização do mecanismo de câmbio do país.  

A trajetória de descida do renminbi sucedeu a mudanças neste mesmo mecanismo, que afere a paridade da moeda contra um cabaz de divisas, tendo como referência valores de venda no mercado offshore, e está circunscrito num intervalo de variação positiva ou negativa de dois por cento. O mecanismo é marcado por uma constante intervenção do banco central. Em maio último, por exemplo, foram introduzidos novos factores de ajustamento “contra-cíclico” na cálculo da variação diária do câmbio, entendidos pelos analistas como uma forma de contrariar o mercado.

Mas, onde o câmbio do renminbi oferece ao devedor de outras divisas incerteza quanto aos custos finais de financiamento, assegura por outro lado uma potencial maior procura da parte dos investidores chineses. 

João Duque nota que “uma entidade chinesa ao tomar dívida na moeda em que faz a sua contabilidade passa esse risco para o emitente e sabe que a taxa fixada e o valor emprestado não serão corroídos por efeitos cambiais”. O economista lembra que são hoje várias “as instituições chinesas que têm presença em Portugal e que podem através desta forma assegurar que os valores a repatriar no futuro ficam garantidos”.

Descontando o risco cambial, a grande vantagem para Portugal estará no “acesso fácil a um mercado de gigantescas proporções” para as necessidades portuguesas. “Penso que a grande questão é começar pouco a pouco a habituar os investidores chineses ao emitente Portugal e poder assim abrir portas para futuras emissões e atrair pois esses investidores”, afirma o economista português.

A aprovação do Banco Popular da China acontece numa altura de gradual abertura do mercado financeiro chinês onshore a investidores externos – desde julho, por exemplo, é possível investir em obrigações do mercado interbancário chinês através de Hong Kong – e em resultado da intenção das autoridades centrais chinesas de ampliarem o uso do renminbi – a chamada internacionalização, sancionada pelo Fundo Monetário Internacional no ano passado ao reconhecer a moeda como divisa de reserva no cabaz de direitos especiais de saque da instituição.

Além de Portugal, outros dois países europeus emitiram já dívida soberana denominada em renminbi no mercado chinês: Polónia e Hungria. A Bielorrússia poderá fazê-lo no próximo ano. Em julho, a Hungria obteve uma taxa de juro de 4,85 por cento numa emissão no valor de mil milhões de yuans. A Polónia, primeiro país europeu a avançar para as chamadas ‘panda bonds’, obteve uma taxa de 3,4 por cento numa emissão de três mil milhões de yuans, em agosto de 2016.

A última colocação de obrigações portuguesas no mercado (a 10 anos), a 13 de setembro, obteve uma taxa de 2,785 por cento.  

Maria Caetano

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