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Crianças são bomba-relógio social

O excesso de filhos e a falta de emprego são dois problemas que se cruzam em São Tomé e Príncipe. O governo fala num “tiquetaque permanente” mas a sociedade parece pouco sensível aos apelos para reduzir a natalidade.
Rita tem oito anos e vive numa aldeia pobre de Ponta Figo, perto de Neves, numa das zonas mais isoladas de São Tomé e Príncipe. A mãe está grávida de mais um bebé. O sexo só o saberá quando nascer aquele que será o seu nono irmão, de três pais diferentes.
A sua mãe, Patrocínio, tem apenas 30 anos e quer ter filhos enquanto puder. “Os filhos são uma bênção, e eu sou abençoada”, diz a mulher, enquanto vende banana-pão e peixe andala assado junto à estrada. A filha Rita é “menina mais velha” que lhe vai herdar o negócio – porque os três primeiros filhos – rapazes – “andam por aí” a “trabalhar nas coisas” e a “fazer pelas vidas”, diz a mãe, sem nunca explicar o que fazem.
“As crianças andam por aí. Isso é um problema, uma bomba-relógio, porque não têm emprego nem perspetivas”, diz o português Manuel António, bispo de São Tomé desde 2008.
Rui, sete anos feitos há pouco, é um desses exemplos de abandono infantil. “Eu estou inscrito na escola”, diz alegre. Mas não sabe o nome da professora nem de outros colegas da turma. “Nunca fui lá”, responde, já sério.
As salas de aulas, muitas de traça colonial, com capacidade para 30 alunos têm quase três vezes mais. “Não tenho livros nem lugar. Vou às aulas quando tiver lugar”, justifica o menino de sete anos, num intervalo de mais um jogo da bola, na roça Diogo Vaz, em Lembá, São Tomé e Príncipe.
Manuel António insiste que, mais do que obras, o país deve apostar na qualificação das novas gerações. “Apostar na educação, esse sim, é que deve ser um projeto para o futuro deste país”, diz.
“São Tomé e Príncipe é São Tomé e Príncipe: duas pequenas ilhas com encanto que precisam de ter um projeto de futuro inclusivo para toda a gente”, resume o bispo, que aponta o desemprego como “uma praga social”, já que a “maior parte da população vive da pequena economia informal”.
“Não deixa de ser preocupante ver a quantidade de jovens sem condições para terem esperança no futuro”, diz, mostrando-se preocupado com a situação atual. “Este país cresceu tremendamente em população e só agora é que começam a existir algumas estruturas de ensino”, apontando os problemas de educação como algo que tem de ser resolvido a curto-prazo, sob risco de grande parte da população ser analfabeta funcional“É um desastre o que escrevem e como escrevem”, Deputada regional do Movimento para a Libertação de São Tomé e Príncipe (MLSTP) pela ilha do Príncipe e inspetora educativa, Graça Lavres mostra-se preocupada com o futuro do setor. “Qualidade de ensino na minha terra? Aqui só se fala em quantidade. Não há exigência. A maior parte dos professores não tem formação”, acusa.

E o futuro torna-se sombrio quando as estatísticas indicam que metade da população total do país (cerca de 200 mil habitantes) tem menos de 20 anos, num contexto de desemprego jovem generalizado.
“É assustador porque não se consegue dar a volta a isto”, diz Graça Lavres.
Mas a questão do excesso de filhos não preocupa os são-tomenses. O próprio Presidente da República, Evaristo Carvalho, tem 25 filhos e falou várias vezes nisso durante a campanha eleitoral como exemplo da sua pujança pessoal.
“É sinónimo de virilidade ou fertilidade ter muitos filhos. Não vejo os meus compatriotas preocupados com isso, o que é uma pena”, diz António, funcionário de um hotel no centro de São Tomé.
Aos 28 anos, António é um caso raro na sociedade são-tomense. Casado há dez anos, só teve uma filha, agora com três anos. E só quer ter mais um bebé – “queria antes um menino mas seja o que Deus quiser”. Com dois filhos “é possível pagar os estudos e trabalhar para eles terem uma vida melhor que a minha”, explica.

LUSA – 保羅·喬治·奧古斯迪尼奧 Paulo Jorge Agostinho
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