José Carlos Matias

Modernidades

A ordem mundial “pós-Americana” está aí, em formação. O conceito de modernização como sinónimo de ocidentalização perde sentido num mundo de modernidades múltiplas, que, simultaneamente, competem entre si e se complementam. Na multipolaridade emergente, a China ascende aos olhos de todos como pilar desta “nova ordem” cujos contornos ainda estão por definir, mas em que os “interesses” convergentes ou divergentes são assumidos como leitmotiv das interações internacionais ao invés de uma narrativa sedimentada em “valores”.  Ao longo das últimas décadas, a China foi moldando novas organizações e aumentando significativamente o seu contributo para as organizações multilaterais existentes, tornando-se num contribuidor crucial para a Organização das Nacões Unidas e as suas diversas agências, a par de outras entidades. O empenho político demonstrado por Pequim relativamente ao Acordo de Paris sobre as alterações climáticas, a aposta feito nos últimos anos  nas tecnologias amigas do ambiente – a par da retórica em torno do comércio livre – projetam a China como “Bom Cidadão” da globalização, em claro contraste com  o rumo seguido pela actual administração norte-americana. No fundo, Donald Trump tem sido um “acelerador” de um processo histórico já em marcha. Naturalmente que a realidade traz à tona algo de bastante mais complexo. Para a China, esta encruzilhada em que nos encontramos representa uma miríade de desafios e testes à sua capacidade para se assumir verdadeiramente como uma potência que emerge de forma globalmente benigna. 

A este nível , a iniciativa Uma Faixa Uma Rota materializa todo um projecto, sinalizando um processo de  modernização  à escala global que tem a China como eixo central. Uma avaliação  do impacto só poderá ser feita mais tarde, mas o escrutínio  da pegada ambiental de vários projetos infraestruturais é crucial, como é salientado no artigo publicado na edição desta semana do PLATAFORMA. O sucesso da iniciativa Uma Faixa Uma Rota não passa apenas pela forma como irá beneficiar do ponto de vista económico todas as parte envolvidas – com  especial importância para as populações – mas também por critérios de transparência e relativos ao impacto ambiental, nomeadamente ao nível da biodiversidade.  Não há tempo a perder. 

José Carlos Matias 10.08.2018

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