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Luís Andrade de Sá – UM DISPARATE POR MINUTO

Abre-se um jornal e são os piolhos; noutro, as horríveis cadeias; num terceiro, a imensa miséria. Como são jornais de referência, tudo o que contam é verdade, e como estamos a falar do Brasil, as coisas ainda podem ser piores.

O início do Mundial deu mais força à recente moda de bater no Brasil. Caiu um ramo de árvore em Londres e matou uma mulher? Haviam de ver o estado dos táxis em Campinas. Prepara-se a ocupação de Central, em Hong Kong? O que é isso, comparado com os “ocupas” de São Paulo? Cavaco Silva foi vaiado na Guarda? Pois, pois, mas Dilma já nem pode sair à rua.

Fosse isto o México, e diríamos: “pobre país, tão longe de Deus” (e tão perto dos Estados Unidos…).  Mas este é o Brasil, o país moderno e “dos contrastes”, para usar um chavão, mas aquele que, plagiando a propaganda do PT de Lula da Silva, mais pessoas retirou da pobreza nos últimos anos. Ambas as afirmações são verdadeiras, mas não chegam para disfarçar a grande irritação dos brasileiros com um Mundial organizado por um cartel hostil – a FIFA – e pago com dinheiros públicos que seriam muito melhor aproveitados a tapar outros buracos.

É o “povão” a falar e bem-vindos, portanto, ao país da opinião pública a valer, não só a dos grandes jornais, como a da imensa massa urbana, que não pensa duas vezes para protestar contra a extravagância de se organizar um Mundial no tal país dos contrastes. No Euro 2004, que o continuamos a pagar, a multidão saiu à rua, mas com as bandeirinhas nacionais do senhor Scolari, o mesmo que agora chama burros aos que manifestam a sua indignação pelo que terão que desembolsar.

“No chamado ‘país do futebol’, pela primeira vez uma Copa do Mundo não trará dividendos políticos, mas mostrará uma população consciente da tentativa de espoliar seus sonhos. População cuja revolta pode explodir a qualquer momento, da forma mais inesperada possível, mesmo que seja governada por pessoas que nada mais têm a oferecer a não ser a polícia”, concluiu, na Folha de S. Paulo, o filósofo Vladimir Safatle.

Nada podia ser mais simbólico do que o PT e Dilma Rousseff – uma militante da luta armada contra a ditadura, presa e torturada – a recorrerem à polícia para enfrentarem o povo.

É irónico, sim, mas faz parte do jogo democrático, e talvez Dilma leve o cartão vermelho nas urnas, pelo que não adianta andar a fazer a lista dos “horrores” no Brasil, sob o risco de estarmos a cuspir contra vento.

Luís Andrade de Sá

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