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Contra o desaparecimento

A Associação DOCOMOMO Macau vai lançar em 2019 – ano do 20º aniversário da transferência de Portugal para a China do exercício da soberania de Macau – o “Roteiro da Arquitetura Moderna de Macau”.

O guia traz 38 exemplos da arquitetura modernista em Macau. Mas destes, apenas dois – Mercado Vermelho e Escola secundária luso-chinesa Luís Gonzaga Gomes – estão classificados como espaços de interesse arquitetónico.
Para os arquitetos Rui Leão, Sérgio Spencer e Tiago Rebocho – do Comité Internacional para Documentação e Conservação de Edifícios, Locais e Bairros do Movimento Moderno DOCOMOMO Macau – “todos os edifícios que integram o Roteiro, assim como outros que ficaram de fora, deviam estar já classificados pelo Instituto Cultural de Macau (ICM) para assegurar a manutenção, revitalização ou reutilização”.
“É uma das nossas batalhas. O Roteiro serve também de alerta às autoridades para a necessidade e urgência de classificação dos edifícios de interesse arquitetónico de Macau. Têm de ser protegidos”, defenderam.
No livro, a cidade vai estar dividida em sete setores, cada um deles com um itinerário próprio onde podem ser observados edifícios que simbolizam a presença do modernismo no território. “O guia é uma abordagem sistematizada do modernismo em Macau”, esclareceram.
Para Sérgio Spencer, Tiago Rebocho e Rui Leão, “a iniciativa quer dar a conhecer à população de Macau e a quem a visita, como acontece em muitas outras cidades, percursos alternativos e um outro olhar sobre a cidade. Um roteiro cultural alternativo, um nicho, que fica fora dos circuitos turísticos tradicionais”.
“Um dos objetivos é levar os residentes, a população, a reconhecer o que Macau tem para oferecer em termos de qualidade arquitetónica e urbanística. No fundo, uma forma de sensibilizar/educar a população, uma ferramenta destinada a instruir os cidadãos a debaterem a respetiva cidade, o espaço que habitam, em que vivem. Queremos abrir e alargar a discussão, e o debate. Tornar a qualidade (daquilo que existe e a que cidade oferece) inteligível para todos”, acentuaram.
Um dos focos do Roteiro e dos respetivos itinerários é levar quem faz os percursos a reconhecer o conjunto e a importância do Modernismo em Macau, e não exclusivamente cada edifício por si só.
Além disso, Tiago Rebocho, Rui Leão e Sérgio Spencer esclareceram que o Roteiro, além do foco no Modernismo, assinala a existência de um conjunto de edifícios que, embora não fazendo parte do movimento arquitetónico, constituem e integram o tecido urbano do território. “As cidades e o que nelas está edificado não é estanque, é dinâmico e junta vários estilos e épocas. O Roteiro também assinala essa diversidade.”
Para os membros da DOCOMOMO, “a revitalização e reutilização do património deve ser estrutural para uma cidade como Macau”.
“Isto tem de ser uma questão central e não acessória para quem decide”, advertiram.
Os três arquitetos destacaram igualmente que este Roteiro é importante, não apenas por Macau, mas por uma abordagem visual do que o movimento Moderno representa para as cidades.
“Este movimento (escola) veio revolucionar as cidades, em particular na área da habitação. As cidades começaram a ser pensadas como um todo, em que todos tinham direito a uma habitação. É a democratização do conceito de habitação. Passou a ser um direito de todos e para todos. De partilha. O espaço (edifício) passou a ser pensado com uma finalidade. Habitação ou trabalho. E essa era uma finalidade para a vida do edifício”, lembraram.
Os arquitetos acrescentaram que o movimento “veio modernizar as cidades, a partir da primeira metade do século XX. Há uma mudança de escala, surgem novas tecnologias. O modernismo, concluíram, torna-se assim, se se quiser interpretar, como uma máquina de habitar”.

Edifício Rainha D. Leonor

Petição para proteger e classificar um exemplo do modernismo em Macau

Mais de 700 pessoas já subscreveram o abaixo-assinado “para pressionar o Governo” de Macau a classificar e proteger o bloco habitacional Rainha D. Leonor, na Praia Grande, que está “sob ameaça de demolição”.
Os autores do documento – subscrito, a título individual, pelos membros da DOCOMOMO Macau – consideram que é necessária uma ação urgente para preservar e proteger” um espaço que classificam como “um excelente exemplo de património moderno em Macau”.
“O edifício é uma amostra magnífica da inovação da arquitetura do século XX em Macau que deve ser preservada como um legado para o futuro”, lê-se no documento que já é do conhecimento do Instituto Cultural de Macau, entidade responsável pela classificação de edifícios.
O edifico remonta aos anos 1958/1959 e foi projetado pelo arquiteto José Lei. Foi o primeiro edifício residencial “arranha-céus” de Macau e o primeiro equipado com elevador.
Para os autores da petição, o Rainha D. Leonor deve ser protegido porque incorpora os princípios e ideias nascidos com o advento da arquitetura modernista, da segunda metade do século XX, expressa claramente os avanços da época, designadamente na aplicação de novos métodos de construção civil através do uso de betão armado, do cimento e do vidro, está localizado num cenário de edifícios modernista que constitui o maior aglomerado da arquitetura modernista em Macau e está entre os melhores exemplares do paradigma modernista em Macau em termos de composição arquitetónica, da inovação na conceção de um edifício em altura, da racionalização da circulação, das instalações e serviços, bem como do axioma “a forma segue a função”.
O edifício é propriedade da Santa Casa da Misericórdia (SCM) que manifestou vontade de o demolir. O provedor da SCM, António José de Freitas, justificou essa intenção com base nos “elevados custos de manutenção do D. Leonor”. O edifício está instalado num terreno que foi concessionado de forma gratuita ainda durante a administração portuguesa do território.

António Bilrero 05.10.2018

Fotos DOCOMOMO/Gonçalo Lobo Pinheiro

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