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ESTUDO DE URBANISMO VAI COMPARAR MACAU E SÃO PAULO

 

A ideia partiu do interesse pelo urbanismo chinês da Universidade de São Paulo, no Brasil. O arquiteto Rui Leão e o antropólogo Peter Zabielskis solicitaram então o apoio da Universidade de Macau para a realização de um estudo comparativo sobre o planeamento urbanístico das duas cidades, que deverá arrancar este ano.

 

“Pensar globalmente, agir localmente” é uma máxima do debate sobre sustentabilidade e, quando mais de metade da população mundial vive em cidades, o planeamento destas áreas assume grande relevância e a troca de experiências neste campo aumenta as probabilidades de sucesso na tarefa.

A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo criou há dois anos, no âmbito da pós-graduação, uma cadeira de urbanismo chinês. O arquiteto Rui Leão, radicado em Macau, deu ali “aulas no ano passado sobre o desenvolvimento e o urbanismo de Macau e houve um interesse em aprofundar esse estudo”, disse ao Plataforma Macau. 

Em conjunto com o antropólogo norte-americano Peter Zabielskis, professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Macau, o arquiteto planeou um projeto de investigação para “comparar a transformação do espaço urbano público em Macau e em São Paulo”. “As duas cidades partilham muitos problemas, são ambas multiculturais, a sua população está a aumentar, são muito boas para negócios, mas os seus espaços públicos estão a ser desafiados pelo desenvolvimento que registam”, observou Zabielskis.

Para Rui Leão, o que é interessante nesta abordagem comparativa é que a “mega cidade de São Paulo tem algumas semelhanças em termos de escala e de importância económica com o Delta do Rio das Pérolas e também algumas diferenças, pois o facto de não ter fronteiras cria possibilidades de gestão e de sustentabilidade muito diferentes”.

Por outro lado, acrescentou, “o facto de o Delta do Rio das Pérolas ter um enquadramento politicamente mais complexo, ter Hong Kong, Shenzhen, Cantão e Macau, entidades com alguma autonomia, cria mais valias, que, se calhar, são difíceis de conseguir com um governo mais centralizado”.

Macau vai integrar esta pesquisa, de acordo com o arquiteto, segundo uma perspetiva de integração regional. “O objetivo é perceber melhor como funcionam estas duas cidades, São Paulo e Macau, enquanto parte de uma região que é feita de múltiplas cidades que têm uma relação dinâmica entre elas”.

O estudo, que passará pela análise das experiências de sucesso dos dois modelos de cidade, pretende ser “um exercício académico pluridisciplinar, não sendo exclusivo do campo do urbanismo”.

Segundo Peter Zabielskis, o facto de as duas cidades “partilharem uma cultura lusófona não será particularmente relevante para a investigação” em causa, à exceção de “alguns aspetos visuais que possam ter interesse”.

“Pretende-se trocar ideias entre as duas cidades a nível do planeamento”, disse, sublinhando que “é preciso aprendermos uns com os outros no que diz respeito às melhores práticas, ver o que funciona e depois adaptar aos contextos locais”. O académico constatou ainda que “tem havido muitas conferências internacionais sobre como transformar Macau numa cidade verde e sustentável e as pessoas ouvem, mas que é preciso agir”.

O estudo comparativo sobre Macau e São Paulo aguarda o apoio da Universidade de Macau para arrancar, já que, segundo Rui Leão, a ideia é que este seja um projeto conjunto com a Universidade de São Paulo.

“O projeto será desenvolvido ao longo de dois anos e pretendemos dar-lhe depois continuidade com apoios de entidades fora de Macau”, adiantou Zabielskis.

PROBLEMAS À VISTA

 

Para Rui Leão, a cidade de Macau tem hoje “problemas óbvios com grandes potencialidades de se virem a agravar”. Acesso à habitação e o trânsito são “os mais visíveis e preocupantes”, apontou.

Ao salientar que a conclusão da ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau e todo o sistema de transportes previsto a nível regional “vai trazer ao território muitos mais utilizadores”, o arquiteto alerta que o trânsito em Macau poderá complicar-se se nada se fizer até lá, até porque “a cidade já é completamente incapaz de lidar com o que tem”.

Segundo dados oficiais, mais de 238 mil veículos circulam em cerca de 400 quilómetros de estrada de que Macau dispõe.

“Há muita riqueza e muita gente usa isso para adquirir veículos privados e é inapropriado para o desenvolvimento de Macau ter um crescimento tão grande do número de veículos privados sem um planeamento de melhores transportes públicos”, defendeu Peter Zabielskis.

E porque as questões do trânsito estão diretamente relacionadas com problemas ambientais e a mobilidade dos milhões de visitantes que Macau recebe anualmente, Rui Leão defende que a solução passa por “se regular duramente a circulação dos autocarros de turismo e o transporte público”. “Os cidadãos de Macau sentem-se altamente prejudicados por causa do excesso de autocarros de turismo nas estradas e falta de normas para a sua circulação”, disse, sugerindo que os turistas andem mais a pé.

Por outro lado, o arquiteto defende um “sistema integrado de transporte público inteligente, em que as pessoas sintam que é uma mais valia utilizá-lo”.

A limitação da circulação de carros em algumas partes da cidade “é uma parte da solução, mas não resolve nada por si”, considera Rui Leão ao sublinhar que “não faz sentido haver tantos veículos em circulação” num território com cerca de 31 quilómetros quadrados. Para controlar esta situação, o arquiteto propõe que a aprovação de novos veículos tenha em conta a expansão da rede viária e o número de lugares de estacionamento, bem como “políticas de dissuasão”, que passem, por exemplo, pelo aumento do imposto de selo.

“Acho que muitas das questões da cidade têm de ser feitas neste regime de causa-efeito, senão somos tratados como uns meninos mimados, que só temos direitos e estamos todos a criar uma bolha insustentável e não há maneira de criar uma filosofia corretiva”, disse.

Rui Leão considera que Macau “já deveria ter há muito tempo transportes públicos e autocarros de turismo elétricos”. Também Peter Zabielskis considera que isso “seria algo fácil de gerir” em Macau dada a sua pequena dimensão.

O metro ligeiro, uma obra que começou a ser estudada há 12 anos e em construção desde 2011, “é uma coisa vital para Macau”, segundo o arquiteto, que atribui os atrasos registados “a um excesso de consulta pública”, o que tem prejudicado a própria cidade. Rui Leão diz sentir-se “incomodado com o preconceito existente contra o betão”, respondendo às vozes críticas da opção de o metro ser aéreo e não subterrâneo. “As estruturas de metros aéreos em Banguecoque e em Kuala Lumpur são bem desenhadas e de uma enorme elegância, às vezes parece que é um preconceito só porque na Europa não existe, mas esta foi uma tecnologia que apareceu mais recentemente e, por isso, foi muito implementada na Ásia, pois as suas cidades estão em expansão”, sustentou, considerando que o metro ligeiro “vai qualificar” algumas áreas de Macau.

 

LIMITAR VISITAS A ATRAÇÕES

 

A população de Macau “tem hoje uma pegada ecológica grande e é preciso reduzir isso”, afirmou Zabielskis, observando que para esta situação também muito contribui o elevado número de visitantes que a Região regista.

Para o antropólogo, como para Rui Leão, fazia sentido “haver quotas para visitas de algumas atrações turísticas ou devia-se pagar à entrada”. “Certamente que algum tipo de plano precisa de ser feito para limitar o número de turistas que visitam as Ruínas de São Paulo em alguns horários e até o templo de A-Ma”, indicou Zabielskis, para quem isso poderia passar pela taxação ou por um sistema de reservas.

O académico observou ainda que as “pessoas estão preocupadas, não só com a mão-de-obra proveniente do exterior, mas com a entrada de um grande número de visitantes que dão a sensação de ‘esmagar’ a cultura local”. “Muitos residentes sentem que os espaços públicos já não são seus, porque estão cheios de visitantes”.

Para Rui Leão, o “abuso dos operadores [dos autocarros de turismo] contribui mesmo para uma visão hostil em relação aos visitantes, com quem partilhamos a cidade, e que não deveria existir”. O arquiteto constata que os residentes “veem o turista como o diabo, o inimigo, porque consideram que ele lhes está a retirar qualidade de vida”.

Rui Leão aponta outros problemas na cidade relacionados com o facto de a habitação pública precisar hoje de dar resposta também “a grande parte da classe média” e propõe uma maior “articulação com o setor privado para a construção de habitação económica”, a disponibilização de mais unidades para arrendamento e a implementação de uma “ideia de cidade vertical mais operacional” para que “não se percam relações de vizinhança e a sensação de humanidade”.

Zabielskis lamenta que a “quantidade de espaços verdes seja muito baixa em Macau comparando com outras grandes cidades” e Rui Leão diz haver “problemas de urbanismo, de desenho urbano” na cidade, que, defendeu, “deveria estar nas mãos dos arquitetos locais porque eles sabem como a cidade funciona”.

O arquiteto constata que “Macau tem tido um desenvolvimento com transformações muito acentuadas” e que “falta capacidade de pensar realisticamente os problemas da cidade”, mas que “quando há vontade política tudo se resolve”.

Peter Zabielskis gostaria de “ver um desenvolvimento centrado nas pessoas, mesmo que isso signifique olhar para as necessidades do desenvolvimento comercial em segundo lugar”. “As pessoas de Macau são maduras e procuram uma melhor qualidade de vida”, alertou.

 

 ‬Patrícia Neves

 

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