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A crise económica continua

Empresas fechadas ou a contabilidade zero, quedas de entre 30 a 50 por cento na faturação, quebras nas compras nos supermercados e na confiança de investidores nacionais e internacionais. Estas são algumas das consequências económicas da instabilidade política do último ano em Timor-Leste.

A instabilidade não dá, para já, sinais de ficar resolvida. A difícil coabitação entre a coligação de maioria do Governo, o Parlamento e o Presidente da República, os atrasos na execução orçamental e os solavancos políticos em série têm dificultado a conjuntura de Timor-Leste.

Vários empresários confirmam a “situação dramática” que afeta muitas empresas: poucos ou nenhuns projetos públicos, atrasos no setor de ‘bens e serviços’ e no pagamento de dívidas do Estado.

Muitos não querem dar o nome, mas confirmam que tiveram que recorrer a linhas de crédito, que estão com problemas em manter liquidez ou que, simplesmente, não têm clientes ou tiveram uma redução significativa de vendas. Outros admitem estar a viver uma “situação dramática” com dezenas de empresas fechadas, quedas de até 60 por cento na faturação, dívidas acumuladas do Estado por pagar e uma quebra total de confiança na economia nacional.

Uma situação que afeta os empresários nacionais de grande e pequena dimensão e os investidores estrangeiros. O longo período de instabilidade política está alastrar-se, sobretudo este ano, à economia.

“Francamente, neste momento, estamos todos a viver uma situação muito difícil. O mercado caiu muito, em todos os setores, da construção civil às lojas e os atrasos nos pagamentos do Estado não ajudam”, disse Óscar Lima, presidente da Câmara de Comércio e Indústria timorense.

“Os dados que temos estimam que as dívidas do Estado aos empresários já ultrapassam os 400 milhões de dólares norte-americanos. E que mais de 300 pessoas já fecharam empresas, muitas estrangeiras”, explicou. Óscar Lima acrescentou que a quebra económica afeta todos os setores, notando-se muito no retalho e restauração, especialmente na capital já com muitos negócios fechados.

“Não podemos continuar assim. Se não recebermos, se nada for feito para criar estabilidade, teremos que despedir ainda mais pessoas. Apelamos aos líderes para que resolvam o problema”, afirmou. “Até as lojas dos chineses estão a passar mal”, realçou. 

Jorge Serrano, dono do grupo GMN, um dos maiores do país, afirmou que a situação já levou muitos a ficar arrependidos com o investimento que fizeram em Timor-Leste, perante uma grande “quebra de confiança” no país.

“Estamos a ter de aguentar as empresas praticamente sem receber. Os bancos não financiam porque não há liquidez. Tenho 732 funcionários e isso representa um custo mensal elevado. E até setembro a quebra de faturação foi de 60 por cento”, sublinhou.

“Isto nunca aconteceu. Nem na crise de 2006 a economia esteve assim”, salientou, referindo-se ao período em que Timor esteve em vias de entrar em guerra civil. 

Serrano disse que muitos estão à procura de outros mercados, inclusive timorenses, e que o mais grave é não haver sinais de solução, com as empresas incapazes de aguentar mais tempo.

“Investimos e apostamos no país também por responsabilidade, sentido de Estado. Mas temos de ganhar dinheiro. Se não, não dá. Se não conseguimos sequer pagar custos, temos de fechar”, afirmou.

Falta de liquidez é transversal

Empresas de contabilidade em Timor-Leste confirmaram a quebra no negócio, adiantando que várias empresas fecharam, muitas estão com atividade suspensa, “a zeros”, e que a maioria reporta quebras de faturação significativas.

Vitor Costa, da empresa de contabilidade Primos Boot, confirmou à Lusa que entre setores económicos afetados, o da construção é o que mais se ressente. A quebra também se nota em setores como o do retalho e da restauração. “Já fechei quatro empresas este ano, a maior parte da construção. Quase todos os setores notam perdas. Quedas que em média são de 30 por cento”, explicou.

“Desapareceu um terço do mercado. Pelo memos a nível de faturação”, acrescentou. “Há empresas que estão cá só no papel, que deixaram Timor à espera que melhore. Haver menos pessoas, menos internacionais a consumir, vai ter um impacto ainda maior na restauração, nos supermercados, e em toda a economia”, alertou.

Brígida Viegas, responsável da Safe Accounting, empresa mais recente no mercado, disse que também se nota quebra na faturação, com destaque para a restauração. Viegas acrescentou que algumas empresas se registam “na esperança de poder arrancar” e que outras estão “disponíveis para vender”.

Entre os estrangeiros há mais tempo em Timor-Leste, Tiago Barata, diretor do mais conceituado hotel em Díli, o Hotel Timor, também confirmou a queda no volume de negócio este ano. “Desceu consideravelmente. Menos 20 por cento de dormidas, marcações de eventos. E isso face a 2017 que já foi ano de quebra, de cerca de sete por cento”, referiu. “Não me lembro de ter havido uma situação idêntica ou pior que esta”, reforçou. 

António Sampaio 30.11.2018

‭ ‬Exclusivo Lusa/Plataforma Macau

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